Um pouquinho de Estados Unidos nesse futebol brasileiro

Sei que esse título já pode distanciar subitamente alguns apaixonados pelo futebol jogado com os pés. Estes puritanos bradariam, de peito aberto, “como alguém pode colocar na mesma sentença futebol e Estados Unidos em concordância? Justo os ianques, que mal sabem chutar uma bola não oval?”

É verdade. A trupe de Alexi Lalas, Donovan e cia. está anos-luz atrás da malemolência, suingue e gingado de nossos jogadores sem nome duplo (desculpa, Diego Maurício e Willian José, mas vocês não vão conquistar o coração do povo brasileiro com esses nomes). Mas não quero aqui estabelecer uma relação entre o esporte jogado no Brasil e nos Estados Unidos, nem sequer comparar a qualidade da Major League Soccer (soccer, pessoal. Soccer) com os nosso campeonato Brasileiro. Na verdade, gostaria de mostrar como uma forma de organizar qualquer esporte lá “nas América” acaba sendo uma fonte para que possamos melhorar o meu, o seu, o nosso futebol.

Neste início de ano temos, por todo o Brasil, os campeonatos estaduais. Nove entre cada dez comentaristas esportivos (tiro o genial Flávio Gomes dessa turma) repetem sistematicamente que tais competições estão xoxas, chatas, sem o menor atrativo para o torcedor e, por isso, não deveriam mais existir. Ora, especialistas esportivos (que, consequentemente, se consideram especialistas em comportamento do brasileiro), como explicar o estádio lotado no último jogo entre Santa Cruz x Sport? Clássico regional? Por favor, parem de se iludir e olhem para a tristeza que foi ver o San-São (9.334 pagantes) algumas semanas atrás. Os campeonatos regionais ainda são uma força sim, só que fora do eixo Sudeste-Sul deste país. Portanto, antes de gritar fogo olhando pra fumaça, verifique se não foi só um cigarro que se acendeu. Faz bem.

 

Continuando do ponto em que tinha parado, como os campeonatos regionais ainda são  fortes no eixo Norte-Nordeste do país, é bem mais do que justo que continuem com as competições por lá, como muito bem escreveu Catarina Cristo há algum tempo atrás. E que, com isso, seja criada a Conferência Norte do país (acho que o título começou a fazer um pouco mais de sentido agora). Times de estados acima de Minas Gerais fariam parte desta conferência, acirrando a disputa regionalista que tanto há por lá. Desta forma, teríamos um campeonato forte, com equipes cheias de torcedores apaixonados, estádios lotados e muita festa (na verdade, tenho certeza que os jogos seriam mil vezes mais interessantes que o de sua rival sulista, explicada no próximo parágrafo).

Por outro lado, teríamos, de Minas Gerais para baixo, a Conferência Sul, na qual seriam disputadas uma liga no molde do Brasileirão que temos hoje (afinal, com tão pouco incentivo financeiro que temos hoje para o futebol nordestino – boa, CBF! -, apenas o Ceará e o Bahia estão na divisão de “elite”, enquanto poucos clubes desta região estarão presentes na segunda divisão), com 20 times distribuídos em uma caralhada de divisão. Os jogos continuarão xoxos, mas aí a culpa é nossa, que nos acomodamos com o sofá e as companhias de Cléber Machado e Caio Ribeiro.

Desta forma, acredito que a divisão ficaria como a figura abaixo, no qual os estados em vermelho fariam parte da Conferência Sul e os de cima, da Norte.

Acredito que esta seria uma forma de tentar solucionar a questão do futebol brasileiro (que, por mais que a Globo e a CBF queiram nos fazer acreditar no contrário, está indo de mal a pior). O campeão da Conferência Norte enfrentaria, em uma única partida, o campeão da Conferência Sul, para assim detectar o verdadeiro campeão Brasileiro. Os dois melhores times de cada Conferência seriam os representantes do país na Libertadores.

O futebol do norte e nordeste (centro-oeste junto) seria resgatado das cinzas na qual se encontram e seus times de tanta tradição e respeito (Remo, Paysandu, Sport, Náutico, ASA, Sergipe, Comercial-MT, o recém-falido Moto Club) poderiam encontrar uma forma de reconquistar o lugar que merecem no futebol nacional.

O futebol do sul e do sudeste também poderia talvez reanimar seus moribundos times do interior, que passam 3 meses jogando os campeonatos estaduais e depois precisam fazer um desmanche homérico, deixando seus estádios às traças (foi triste constatar a situação do estádio Décio Vitta na última vez que estive em Americana, no ano passado). Estes times teriam uma competição para disputar durante o ano inteiro, além de terem a possibilidade de galgar sonhos mais altos (a primeira divisão da Conferência Sul).

Enfim, pode ser uma solução simplista, mas acredito que espelhar nosso campeonato no padrão de uma Inglaterra ou Espanha é uma burrice – e reducionismo – sem tamanho, uma vez que estes países são do tamanho de alguns estados brasileiros. O mais certo, neste caso, é se inspirar em um modelo que dá certo na terra do Tio Sam (com dimensões muito mais tupiniquins que Portugal) para tantos esportes, como o basquete, o futebol americano e o beisebol. Quanto ao futebol, eles continuam sem saber como chutar.

Hasta!

3 Responses to “Um pouquinho de Estados Unidos nesse futebol brasileiro”


  1. 1 Mini-Crítico 08/02/2011 às 6:10 PM

    Brilhante, meu caro N14. Preciso dar uma pensada, mas acho que concordo com 85% das ideias aí propostas. Catarina Cristo e você conseguiram olhar fora da caixa e, como nós networkers sabemos, essa é a única solução para se ter bons creative insights. Ao ler o título do texto, pensei que você fosse propor algo nos moldes da NBA, NFL e NHL no sentido de se criar franquias e explorar o marketing e todas essas pau-molices. Mas aí pensei de novo e lembrei que quem tinha escrito era você. Que me desculpem os yankees, mas não existe nada mais artificial e sem alma do que os esportes deles, em 95% dos casos. E não é preconceito não. É a constatação de que a gremioprudentização nunca vai, e nem pode, vingar pra baixo da linha do Equador.

  2. 2 Mini-Crítico 08/02/2011 às 6:11 PM

    Mas, que fique claro, o modelo de divisão em conferências é interessante e deve ser considerado seriamente. Especialmente por se tratar de um país com essas dimensões, como você bem disse no texto.

    • 3 Nico 08/02/2011 às 6:59 PM

      Valeu, P10. O teu elogio nestas questões é algo que busco e fico feliz de ter vindo.

      O sistema de franquias é mais uma prova de que o nosso futebol vai de mal a pior. É uma tristeza ver o Rio Branco sumir do mapa, o Corinthians de Presidente Prudente e outros times tradicionais. Isso não pode acontecer. Acho que isso jamais deverá ser copiado dos modelos americanos, que privilegiam a vitória ao sentimento de paixão e amor dos torcedores. Mas acho que a forma como eles organizam seus principais campeonatos é uma bela fórmula que poderíamos seguir, com suas respectivas alterações, é claro.


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